Os circuitos dos jovens urbanos - José Guilherme Cantor Magnani

Introdução

Este artigo apresenta os resultados de um trabalho sobre os jovens e suaspráticas culturais e de lazer, redes de sociabilidade e relações de troca (etambém conflito) no contexto urbano de uma grande metrópole, no casoa cidade de São Paulo. As pesquisas que estão na base das reflexões aquiapresentadas foram realizadas no âmbito do Núcleo de Antropologia Urbana(NAU/USP)1, mas devem ser levados em conta também muitos dostrabalhos feitos na disciplina Pesquisa de Campo em Antropologia, ministradapor mim no curso de graduação de Ciências Sociais da FFLCH daUniversidade de São Paulo2. Nessa disciplina, os alunos são iniciados nasartes da etnografia, desde a escolha do objeto e a discussão do tema, passandopela elaboração do projeto e idas a campo, até a entrega do relatóriofinal. Muitos projetos de pesquisa de pós-graduação (e carreiras acadêmicas)tiveram aí seu início e incentivo.São justamente algumas dessas pesquisas de iniciação científica e demestrado, desenvolvidas como continuação de trabalhos de graduação, asaqui mostradas para expor o tema e a forma como ele foi tratado no enfoqueda antropologia urbana.
Baladas black e rodas de samba
O trabalho de campo sobre este tema foi iniciado por Márcio Macedona disciplina “A pesquisa de campo em antropologia”, por mim ministradano curso de graduação de Ciências Sociais da FFLCH/USP. Esse estudo foidepois retomado por Márcio, que buscou rastrear, historicamente, a presençanegra no centro da cidade e, a partir dessa ocupação, descrever trajetosdentro de um circuito específico de jovens negros na noite paulistana.“O centro é black, man!”, e não é de hoje. Sem ir muito longe, tomandocomo referência apenas a ocorrência de salões de dança, é possível remontaraté antes do período da Frente Negra Brasileira (FNB), nos anosde 1930, com seus bailes sociais, nos moldes dos clubes recreativos e so182Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 17, n. 2Os circuitos dos jovens urbanos, pp. 173-205ciais dos imigrantes ou da elite paulistana: por volta de 1910, já se temnotícia da expressão “negro de salão” para designar o freqüentador de clubesque, em eventos familiares e bailes caseiros, se diferenciava pelas maneirase indumentária mais refinadas, adquiridas nos salões de baile docentro da cidade.O exercício etnográfico proposto por Márcio para a pesquisa “Os caminhosda metrópole” foi partir da presença significativa de jovens negros nocentro da cidade no final da jornada de trabalho de sexta-feira, reunidosnuma roda de samba coloquialmente denominada “Samba de Bandido”ou “Samba da Dom José” (referência à rua Dom José Gaspar, local doevento), e a partir dela rastrear o circuito black em alguns pontos de diferentesregiões da cidade. Esse ponto de encontro no centro, no calçadão deuma das ruas até essa hora tomada por camelôs e seus produtos de origemduvidosa (roupas, tênis, bonés, DVDs etc.) que aos poucos vão cedendoespaço para vendedores de cds de rap, R&B, samba, e carrinhos com bebidas,situa-se em frente a uma lanchonete sem nome. E a rua ferve! É umaespécie de happy hour para os jovens trabalhadores da região e ponto departida para a noite que, em sua versão black, promete...São três os espaços pesquisados e que se diferenciam pelo entorno, pelotipo de música e de dança, pela roupa dos freqüentadores, por seu poderaquisitivo e pela, digamos, proporção entre jovens negros e brancos. O primeiro,chamado “Sala Real”, fica na Boca do Lixo (zona de prostituição),ainda na região do centro; os ingressos são mais baratos, a maioria dos freqüentadoresé constituída por negros, há forte presença do hip-hop e amúsica é predominantemente internacional. O outro é o “Sambarylove”,no Bixiga: o público é também majoritariamente negro, provém de toda acidade e também do interior do estado (trazidos em ônibus de excursão); asopções musicais são mais variadas: samba, samba-rock, axé music, rap,R&B, raggamufin e “melodia” (lenta). Se na Sala Real o som é consideradounderground, aqui é mais “comercial”. A terceira casa é o “Mood Club”, nobairro de Pinheiros: mais elitizada, conta com manobristas e tem página nainternet. A maioria do público é de jovens brancos. Ainda que a interaçãoentre negros e brancos seja pequena, é consenso de que as atrações da casasão a possibilidade de encontros e paqueras inter-raciais e uma musicalidademais refinada, entendida como underground. A seleção de músicas –R&B, rap e raggamufin – privilegia as internacionais, não há pagode nemmúsica lenta. Outro atrativo da Mood, voltada para negros de classe média,é que espaços como o dessa casa podem ser associados a uma noção deque espaços como o dessa casa podem ser associados a uma noção denovembro 2005 183José Guilherme Cantor Magnani“distinção” à la Bourdieu, ou seja, busca-se criar um “estilo de vida” queseja representativo de uma condição de classe. Dentro dessa lógica, estarnum local mais refinado, caro, confortável, heterogêneo do ponto de vistaracial, entre outras coisas, faz todo o sentido.A Vila Madalena propriamente dita não possui casas diretamente identificadascom a black music: algumas delas oferecem esse estilo em determinadosdias da semana – e, nesse sentido, também fazem parte do circuitoblack jovem –, para um público mais heterogêneo. Algo muito interessanteobservado nesse circuito foi a tensão entre uma postura de “afirmação” e aapropriação do estilo black internacionalizado por parte de um públicomais amplo, o que possibilita, de certa forma, encontros e contatos.Mas não se pode esquecer que, na ponta do circuito, instaurando trajetosespecíficos na noite black, está o “Samba de Bandido”, que remete nãoapenas a uma ocupação histórica do centro da cidade pelos negros, comotambém a um tipo de afirmação que joga duplamente com o estigma: operigo atribuído à presença maciça de negros e, em menor medida, o samba,apenas um item a mais (e nem sempre o mais valorizado) na cena blackjovem e nas suas formas de afirmação.Casal dança samba-rock no salão Green Express, na região central de São Paulo.


B.boys e streeteiros na estação Conceição do metrô


Dois foram os pontos de interesse para a inclusão deste tema – desenvolvidopor Fernanda Noronha, Renata Toledo e Paula Pires – na pesquisa “Oscaminhos da metrópole”: em primeiro lugar, a ocupação por parte dessesatores da estação do metrô Conceição, na zona sul da capital, seguindo atradição do hip-hop paulistano que, inicialmente, nos anos de 1980, ocupoua estação São Bento, na região central: tanto em um caso como nooutro, trata-se de um espaço ideal para os ensaios/exibições típicos dessaforma de manifestação. O outro aspecto é o contato e as trocas entre doisgrupos – japas e manos – que, a julgar pela procedência, classe social, preferênciasestéticas, trajetos na cidade, dificilmente se poderia imaginar quepudessem estabelecer algum vínculo.Os “japas” são adeptos da street dance e os “manos”, da break dance; osprimeiros são de classe média, descendentes de japoneses, alunos de escolasparticulares; os outros, da periferia da zona sul, já no mercado de trabalho.

Foto: Paulo Fehlauer.

Os manos, ou b. boys, que estão já há cinco anos no Centro EmpresarialItaú/metrô Conceição, cultivam como estilo de dança o break (ou batidaquebrada), que é ligada ao hip-hop. É uma modalidade que exige mais forçafísica, alongamento prévio e as apresentações são mais individuais, culminandonos rachas ou desafios. Os b. boys criticam os streeteiros, cuja dançanão passaria de uma mistura de estilos, sem o rigor do break; ademais, elesnão teriam o “conhecimento”, elemento fundamental do estilo hip-hop.Os streeteiros, há três anos freqüentando o Centro, desenvolvem umadança mais coreografada, em grupo, que exige menos condicionamentofísico e mais sincronização dos movimentos: os espelhos do Centro Empresarialsão fundamentais para o aprimoramento dessa modalidade. Ensaiamprincipalmente nas manhãs e tardes de sábado, para depois se apresentaremem campeonatos nos eventos da colônia. Não se identificam como estilo que eles próprios denominam de “japinha” (franjas dos cabelosdesfiadas, mechas coloridas, as nucas raspadas), preferindo as calças big,camisetas Pixa-In Hip Hop Wear, tags etc., identificados com a estéticahip-hop. As meninas do grupo, contudo, não dispensam os bichinhos echaveirinhos nas mochilas e os celulares estilizados são a regra.No entanto, compartilham o mesmo espaço – e as inevitáveis tensõescom seguranças e funcionários, por causa do barulho e do uso das instalaçõesem um espaço onde o público e o privado não apresentam fronteirasnítidas – e também a mesma denominação genérica de “dança de rua”. Asdiferenças, além das já apontadas, ficam por conta das formas de deslocamentona cidade, do calendário letivo, das férias escolares, da duração dajornada de trabalho.Mas o específico desse recorte é que o Centro Empresarial Itaú/metrôConceição constitui um ponto de intersecção entre dois circuitos que emprincípio pouco teriam por que se encontrar. No entanto, seus atores dividemo mesmo espaço, entram em contato, estabelecem vínculos. A relaçãoé hierárquica, mas inversa à que se esperaria tomando como base nos indicadoressociais costumeiros de renda, escolaridade etc.: aqui, são os japasque reconhecem a superioridade dos b. boys e aprendem com eles os truquese manhas da dança de rua.

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